O filtro afetivo e sua influência no aprendizado de uma segunda língua
- theenglishteaching6
- 20 de fev. de 2023
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Trabalhei por um pouco mais de três anos numa grande escola de idiomas em São Paulo. Antes de entrar em sala de aula efetivamente, fiz um treinamento que durou algumas semanas. Neste treinamento, entrei em contato com temas que nunca tinha visto antes em minha carreira profissional. Um deles foi o conceito de “affective filter”, ou filtro afetivo, uma das hipóteses que faz parte da teoria de aquisição de uma segunda língua elaborada por Stephen Krashen nos anos 80. Como eu não sabia naquela época, acredito que ainda existam muitos profissionais de idioma que desconhecem este termo e o que ele implica. Por isso, neste artigo vou abordar o tema e falar sobre sua importância.
A teoria de Krashen envolve cinco hipóteses: input (insumo de informações), aquisição e aprendizagem, monitoramento, ordem natural e filtro afetivo. Não entrarei em muitos detalhes sobre cada uma delas, pois o foco é entender mais sobre o filtro afetivo, mas é importante saber pelo menos ao que cada uma destas hipóteses se refere para assim compreender a importância do filtro afetivo dentro da teoria de aquisição de segunda língua de Krashen.
A hipótese do input diz respeito à quantidade de informação linguística que o estudante precisa para poder adquirir o idioma. De acordo com o pesquisador, para que o estudante adquira o novo idioma, ele precisa ser exposto à língua um patamar acima de seu nível atual de conhecimento. Por exemplo, o estudante está no nível “i” de conhecimento. Portanto, ele deve ser exposto às informações linguísticas deste nível +1. Como uma fórmula matemática, temos “i+1”.
A hipótese de aquisição e linguagem se refere à forma como Krashen percebe estes dois itens no processo de aquisição. Enquanto a aprendizagem é um processo consciente, momento em que o estudante analisa gramática e vocabulário, a aquisição é um processo subconsciente, fruto de um processo intuitivo e interações em situações reais. Para o pesquisador, o estudante progride no idioma quando o segundo processo de aquisição acontece.
A hipótese de monitoramento ocorre durante o processo de aprendizagem, por ser um fato consciente. O monitoramento ocorre durante a produção do idioma, quando o estudante monitora o que irá produzir de maneira a evitar erros. Quando o monitoramento ocorre constantemente, o estudante fica com medo de se comunicar através do idioma por medo de cometer algum erro. Com isto, ele perde oportunidades de desenvolver o idioma. O ideal é que o estudante tenha um equilíbrio no seu monitoramento, que ele observe sua produção no momento propício, por exemplo durante a escrita, e diminua o monitoramento durante seu discurso espontâneo.
A hipótese da ordem natural está relacionada à ideia de que o idioma tem uma ordem natural para ser aprendida. Isso significa que algumas estruturas serão aprendidas anteriormente à outras, indiferentemente da língua nativa do estudante.
Por último, o nosso foco, a hipótese do filtro afetivo. O filtro afetivo está relacionado ao envolvimento das emoções no processo de aquisição de um novo idioma. Alguns sentimentos, como a ansiedade, autoconfiança, estresse, entre outros, interferem no processo de aquisição de um segundo idioma. Ele é como se fosse um filtro psicológico invisível que pode tanto facilitar quanto prejudicar a produção da nova língua. Devido a estas emoções, o estudante encontra dificuldade em prestar atenção ao que é dito durante a aula e participar nas atividades propostas.
O filtro afetivo pode ser categorizado de duas formas: alto e baixo. Quando o filtro está alto, existem emoções presentes que prejudicam o estudante e ele terá um processo de aquisição difícil e sem muitos resultados, fazendo com que ele progrida pouco e sinta-se desmotivado em continuar com suas aulas. Algumas das situações a seguir podem ter relação com o filtro afetivo alto:
estudantes que tenham apresentado alguma situação de estresse envolvendo o aprendizado de um idioma, ou que estejam passando por um momento de estresse em suas vidas;
estudantes muito ansiosos ou que estejam muito conscientes de qualquer erro que possam cometer;
falta de auto-confiança;
vergonha e medo de errar, o que faz com que participem menos das atividades e não colaborem durante a aula;
tédio e desinteresse por conta das situações acima, o que acabam levando os estudantes a desistirem das aulas.
Quando o filtro está baixo, o processo de aquisição é facilitado, pois as emoções que o estudante apresenta são positivas. Algumas características do filtro afetivo baixo são apresentadas abaixo:
estudantes se propõe a arriscar mais conforme tentam utilizar o idioma;
estudantes se sentem seguros ao cometer erros, pois sabem que não serão julgados e nem constantemente corrigidos;
estudantes se sentem empoderados para interagir com seus colegas e buscam formas de se comunicar utilizando o idioma;
estudantes se sentem seguros ao responder perguntas e compartilhar suas ideias.
Existem maneiras de baixar o filtro afetivo, e para isto o profissional de ensino de idiomas tem um papel muito importante, que pode fazer a diferença na vida do estudante, pois muito de sua motivação em aprender o idioma, como já pode ser visto, tem relação com suas emoções.
O profissional de idiomas deve sempre procurar criar um ambiente positivo e saudável para os estudantes, onde eles se sintam confiantes de que ao cometerem erros não serão julgados. O julgamento não deve vir nem do profissional nem dos colegas em sala de aula. Caso algum colega ria ou faça piada quando algum estudante cometer um erro, o profissional deve mostrar que a atitude não está correta e deixar claro que erros fazem parte de qualquer processo de aprendizado e que só aprende aquele se arrisca e erra.
Outra atitude importante por parte do profissional é com relação à correção dos erros. Não há dúvida de que erros precisam ser corrigidos. Contudo, uma aula em que o profissional corrija cada mínimo erro, toda vez que os estudantes tentam fazer uso do idioma, vai fazer com que eles se sintam inibidos em falar. Por isso, o profissional deve selecionar quais erros corrigir, quando corrigir e como fazer esta correção. Algumas vezes, principalmente quando se sabe que o estudante tem um filtro afetivo alto, a correção pode ser feita individualmente, sem que os colegas percebam. Outra forma, é trazer, ao final da atividade, alguns erros cometidos por vários estudantes e fazer uma correção geral, com a ajuda deles, sem dizer quem errou. Neste processo, pode ajudar muito também não somente corrigir os erros, mas mostrar quando os alunos têm uma produção acertada, como o uso correto de gramática e de vocabulário, por exemplo.
É necessário também procurar saber como o estudante está na sua vida pessoal e profissional, sem ser muito invasivo. Como já vimos, às vezes as emoções que os estudantes apresentam em aula podem ter relação com questões fora da sala de aula. Se possível, podemos ser mais pacientes com os estudantes naquele momento.
A sala de aula em si, ou a forma como as aulas online são conduzidas, também fazem parte desta atmosfera saudável e positiva. Por exemplo, os estudantes terão dificuldades em se concentrar e participar da aula caso a sala de aula esteja muito cheia ou muito quente, se não tiverem condições de tomar notas, se estiverem em cadeiras desconfortáveis, ou se o profissional interromper a aula online a todo momento por algo que esteja acontecendo no local de onde esteja ministrando as aulas.
Encorajar os estudantes a cada pequeno progresso, comemorar com eles suas conquistas, dar dicas, se interessar por suas dúvidas e traçar objetivos com eles são outras formas muito importantes que o profissional pode usar para transformar suas aulas no local mais positivo possível e assim ajudar os estudantes a se manterem confortáveis e motivados a aprenderem.
Ao analisar as características tanto do filtro afetivo alto quanto baixo, entendemos muito do que acontece em nossas aulas, com nossos estudantes. Dentro da minha experiência, já vi muitos estudantes com grande potencial, mas que possuíam um filtro afetivo muito alto, o que prejudicava demais seu processo de aprendizagem. Em alguns casos, muita conversa, paciência, tentativa e erro, mostraram ao estudante que ele estava presente em um ambiente saudável e que poderia se arriscar. Mesmo sem saber da teoria por detrás do filtro afetivo, sempre procurei criar uma atmosfera de aprendizado positiva. Porém, infelizmente tenho certeza de que falhei em alguns momentos. A teoria me trouxe mais ferramentas para entender o processo e saber como posso ajudar os estudantes de maneira mais assertiva. Contudo, acredito que em alguns casos, somente o profissional de ensino não seja suficiente. Talvez o estudante ainda precise de um acompanhamento mais específico, com um profissional da psicologia, visto que em alguns casos, as razões para estas emoções negativas não têm relação somente com as aulas de idioma, mas raízes mais profundas.
Lidar com o filtro afetivo pode ser algo desafiador. Porém, quanto mais o profissional se empenhar e buscar criar este ambiente acolhedor, melhor será o resultado de seus estudantes e mais positiva será a sua imagem para eles. Quantos estudantes carregam traumas, para a vida, por conta de profissionais de educação que não os ouviram ou acreditaram neles, que não prestaram atenção às suas dúvidas, ou riram deles quando cometiam algum erro. Acredito que nenhum profissional queira ter este tipo de imagem relacionada ao seu nome.
Por fim, quero acrescentar que penso que este não seja um tema que deva somente chamar a atenção de profissionais de ensino de idioma, mas sim de todo profissional de educação. Nosso impacto na vida de nossos estudantes é enorme. Nós temos a possibilidade de fazer com que eles fracassem ou vençam. Não podemos fechar os olhos para nossa importância em suas vidas.
Bibliografia:
“Input hypothesis”. Wikipedia <https://en.wikipedia.org/wiki/Input_hypothesis> Visto em 16/02/23.
“What is the affective filter in language learning”. The Tefl Academy <https://www.theteflacademy.com/blog/what-is-the-affective-filter-in-langauge-learnign/> Visto em 16/02/23.
“CES Study: The affective filter”. Cambridge Exam Services <https://cambridge-exam-services.com/study-the-affective-filter> Visto em 17/02/23.
“Lowering the affective filter for English language learners”. <https://www.collaborativeclassroom.org/blog/lowering-affective-filter-facilitates-language-acq/> Visto em 17/02/23.
CITTOLIN, S. F. (2003) “A afetividade e a aquisição de uma segunda língua: A teoria de Krashen e a hipótese do filtro afetivo”. Revista de Letras.





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