A importância dos profissionais de ensino de idiomas como orientadores e modelos de uso linguístico
- theenglishteaching6
- 27 de dez. de 2022
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Muitas são as estruturas e vocabulários que podemos ensinar aos nossos estudantes. Porém, sabemos que essa é uma tarefa árdua. Normalmente, o tempo de aula é curto, uma hora ou talvez uma hora e meia. Além disso, frequentemente nossas salas de aula têm um grande grupo de estudantes, principalmente as presenciais, o que torna menos possível dar atenção para cada estudante individualmente. Mesmo quando temos estudantes particulares, é difícil conseguir incluir tudo que julgamos necessário para eles. Se pensarmos em quando aprendemos português na escola, nem tudo que consta nos livros de gramática nos foi ensinado, ou pelo menos não da maneira ou com a atenção necessárias, provavelmente por falta de tempo ou quantidade de estudantes, que impedia uma maior individualização, uma maior atenção a cada estudante para se ter certeza de que o conteúdo havia sido realmente adquirido, ou até mesmos por uma abordagem metodológica inadequada. Essa é uma tarefa complexa para o ensino de qualquer idioma. Porém, quando aprendemos nossa língua materna, o fato de estarmos cercados pelo idioma e vivê-lo o tempo todo, cercando-nos dele seja na fala, compreensão auditiva, escrita ou leitura, facilita o processo, faz com que de maneira mais orgânica, adquiramos este conhecimento. Talvez daí venha a sensação que muitas pessoas têm de que, a não ser que elas vivam em algum país que fale o idioma a ser estudado, nunca efetivamente venham a aprender o mesmo. Contudo, esta não é uma realidade para todos, e muitos são os casos de pessoas que nunca tiveram esta oportunidade, mas mesmo assim conseguiram aprender muito bem um determinado idioma. A verdade é que, se considerarmos o que acontece quando uma pessoa vive em outro país e assim aprende um novo idioma, talvez possamos recriar, mesmo que em partes, este processo dentro da atual situação de nossos estudantes e dentro de sala de aula, o que facilitará enormemente seu processo de aprendizado.
Quando uma pessoa mora em outro país ou faz um intercâmbio por um longo período de tempo (considero aqui no mínimo um ano) o que acontece é que a pessoa fica imersa no idioma, o efeito mencionado acima de estar cercado por este em todas as suas formas, durante todo o processo de comunicação. Com esta imersão, a pessoa tem contato com o idioma, suas estruturas e é exposta à uma maior quantidade de vocabulário. Isso faz com que ela entenda mais e acabe utilizando alguns destes itens na hora de se comunicar. Se este processo for recriado (em partes), sem a necessidade de viajar, no próprio lugar onde mora, isto vai ajudar, e muito, na aprendizagem e ganho linguístico. E quem pode ajudar o estudante nesta situação é o profissional de ensino de idioma que o acompanha.
O profissional que entende como funciona a aquisição de um novo idioma facilita o processo de aprendizagem de seu estudante através de dicas e orientações que parecem simples, mas sem a correta instrução, o estudante não sabe muito bem o quê e como fazer. De acordo com a Teoria de Aquisição de Uma Segunda Língua de Krashen, parte deste processo de aquisição ocorre de forma subconsciente. Sem o estudante perceber, através da exposição constante ao idioma estudado, que pode ocorrer através da leitura ou da audição, ele entra em contato com características fonéticas do idioma, estruturas gramaticais e vocabulário. Mas aqui não basta somente o uso do material didático, pois este traz diálogos pré-gravados, que contém as estruturas e o vocabulário utilizados especificamente para aquela lição, não sendo um retrato de uma situação real. O estudante precisa ter contato com situações cotidianas, com a forma natural como as pessoas naturais de um país que utilizam o idioma em questão se comuniquem. Por isso, a importância de os estudantes assistirem filmes, seriados, vídeos, ouvir podcasts, entrevistas, ler livros e artigos etc. Através do contato com estes elementos variados, o idioma é utilizado de maneira natural, com expressões corriqueiras, em situações da vida real. Porém, não podemos dizer que o material utilizado em sala de aula não tem sua função. Ele tem, pois é através do uso deste, por exemplo, que podemos analisar o idioma, suas estruturas, vocabulário, características fonéticas, momento que, de acordo com Krashen, também faz parte do processo de aquisição de um novo idioma. Durante este momento, os estudantes, quando a abordagem de ensino é focada neles, faz com que a análise das características do idioma aconteça de forma indutiva (o estudante analisa a estrutura e entende seu funcionamento), ocorrendo assim a aquisição do idioma. Por isso, se uma pessoa está estudando um idioma, mas assiste um filme produzido em um país que utilize este idioma, e prefere assisti-lo com o áudio em sua língua materna, esta mesma pessoa está perdendo uma oportunidade de ter mais um momento de exposição ao idioma.
Todavia, é preciso lembrar que alguns estudantes vão se sentir mais seguros à esta exposição, enquanto outros temerão, por questões diversas, se aventurar neste novo terreno, principalmente no início de seu estudo. Novamente aqui, o profissional de ensino de idioma pode ajudar, sugerindo leituras (orientar o estudante a ler, por exemplo, clássicos literários adaptados para alunos ou livros feitos para alunos - existem livrarias especializadas que vendem este material, infelizmente não para todos os idiomas), o que assistir (nesse primeiro contato com vídeos no idioma a ser estudado, talvez seja mais interessante o estudante optar por vídeos curtos, incluindo a legenda se possível) etc. Conforme o estudante vai ganhando mais confiança, a evolução vai acontecendo, com o profissional acompanhando e orientando, solucionando possíveis dúvidas.
Algo que os estudantes também podem fazer é mudar as configurações de suas mídias sociais, e/ou de seus dispositivos tecnológicos, para o idioma estudado. Com o frequente uso de diferentes mídias sociais e o tempo que as pessoas passam na frente de celulares e tablets, tê-los configurados no idioma em estudo pode ser uma forma de criar mais contato com o mesmo, além de ajudar a memorizar um vocabulário que está muito presente em nosso dia-a-dia.
Além de todas estas situações que podem aumentar a exposição dos estudantes ao idioma, algo que com certeza colabora muito e deve sempre estar presente é o profissional de ensino de idiomas em si. Durante as aulas, este profissional é o modelo mais próximo que os estudantes têm do idioma em questão. Este é um dos motivos pelos quais muito se fala sobre as aulas acontecerem no idioma em estudo, não na língua materna, e também da importância da qualificação profissional e do constante aperfeiçoamento deste profissional, não somente em termos pedagógicos/metodológicos, mas também linguísticos. Em sala de aula, o idioma deve ser utilizado o máximo possível, tanto pelo profissional quanto pelo estudante. Dependendo do conhecimento linguístico que o estudante possui, talvez ele encontre dificuldades para se comunicar e acabe utilizando a língua materna, situação que vai mudando com o incentivo do profissional e progressão em seus estudos. Porém, o profissional deve utilizar o idioma frequentemente, deixando a língua materna somente para quando realmente necessário. Ele deve adaptar a forma como se comunica durante as diferentes fases de estudo de seus estudantes, por exemplo utilizando mais linguagem corporal ou figuras quando nas fases iniciais, quando o estudante ainda tem pouco conhecimento sobre o idioma, e aumentando gradativamente o nível de complexidade da linguagem utilizada conforme os estudantes vão progredindo. De acordo com Krashen, o estudante adquire o idioma quando entra em contato com estruturas e vocabulário que estão um nível acima de seu conhecimento atual.
Baseado na informação acima, parece ser importante que o profissional de ensino de idiomas, além de garantir ao estudante a exposição constante ao idioma através das diferentes formas citadas, inclua em suas aulas momentos genuínos de interação, como perguntar sobre o final de semana ou a semana dos estudantes antes do início da aula, utilizando o idioma estudado, e mantenha o contato constante com estruturas já estudadas em aula, inclusive utilizando estas como forma de acrescentar um elemento a mais de dificuldade. Ensinar uma determinada estrutura ou vocabulário e somente revisá-lo em aula seis meses ou um ano depois, pode não ser o suficiente para que o estudante efetivamente reconheça estes itens, e faça uso dos mesmos, principalmente se o estudante não consegue ter muito contato com o idioma fora da aula (todo processo de exposição mencionado nos parágrafos acima) ou se o estudante se mostra resistente à esta exposição de alguma forma. Quando determinada estrutura ou vocabulário é ensinado, o profissional deve procurar fazer o máximo possível para utilizar estes itens, fazê-los presentes em aula, seja numa conversa casual ou através de exercícios em momentos de práticas de novas estruturas, incentivando os próprios estudantes a utilizá-los quando possível.
O sucesso de um estudante ao aprender um novo idioma depende de uma série de fatores. Porém, é certo que quanto mais exposto ele for ao idioma, seja dentro ou fora de sala de aula, maiores serão as chances de seu aprendizado e consequentemente seu sucesso durante este processo. Salvo algumas exceções, aprender qualquer idioma em meses não é algo tão fácil e nem sempre possível. Aprender, qualquer que seja o objeto de estudo, requer um processo, que inclui tempo, erros e acertos, práticas etc. Um aspirante a médico não inicia seu curso na faculdade de medicina hoje e em no máximo um ano está pronto para atender pacientes e realizar procedimentos complexos. Este princípio se estende para qualquer objeto de estudo. É preciso, desta forma, entender que aprender um idioma, não importa qual seja, este processo também será necessário.
Bibliografia:
Schütz, Ricardo E. "Stephen Krashen's Theory of Second Language Acquisition." English Made in Brazil <https://www.sk.com.br/sk-krash.html>. Online (06/12/22)
Spratt, M., Pulverness, A., Williams, M. "The TKT (Teaching Knowledge Test) Course - Modules 1, 2 and 3." Cambridge University Press - Second Edition





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